sábado, 18 de outubro de 2014

O Rei é cínico e o povo aplaude!

Não deu para sentir nada diferente assistindo aos debates deste segundo turno presidencial de 2014. Sentimento de desesperança, daqueles de entristecer qualquer otimista de plantão. Mentiras e ataques gratuitos, dissimulando a falta de um programa de governo que demonstraria apenas o oportunismo da atual gestão que pouco fez a favor da estabilidade e do crescimento, molas impulsoras do real combate a pobreza. Temos dois opositores ao modelo de gestão atual, um que se orgulha disso (e nos dá esperanças) e outra que não se envergonha deste fato.
Vale-se de tudo, desde mentiras até uso da "máquina pública" para propaganda. Não importa a verdade, tampouco qual o futuro proposto, mesmo porque seria mentira também. O futuro a nós reservado não é o que a propaganda do governo diz, assim como o presente também não corresponde ao propagado. Enfim, o rei (o dono do poder independe de gênero) toma a tribuna, faz cara de arrogante, arrota lorotas e calúnias no maior cinismo hipnótico e ainda assim recebe aplausos comprados a custa do erário ou do medo.
E no meio disso tudo uma grande parcela do eleitorado sem o menor pudor de demonstrar seu medo optando pela manutenção do descalabro apocalíptico administrativo, mesmo que isso lhe tolha um futuro melhor, apenas porque tem pavor de perder um Estado provedor, mesmo que este seja apenas um paliativo.
Presumindo que muitos estejam vacinados e não estejam acreditando nas mentiras terroristas sobre o candidato do PSDB, isso não garante imunidade a perda de votos, sim ele pode perder votos dos indecisos, mas o principal motor da opção do voto na situação não é a "fábrica de dossiês", pois essa funciona como cortina de fumaça na campanha e apenas toma tempo precioso se debatendo reputações enquanto o verdadeiro terrorismo eleitoral mais baixo toma conta das ruas e lares humildes. Também vou presumir que muitos destes humildes tampouco devem acreditar nas promessas vazias da paradoxal "opositora da situação". Então o que temos para nos esclarecer sobre essa quantidade expressiva de votos que possui o aparelho governista atual, mesmo estando com lama até os ouvidos? Porque estamos preocupados com a possibilidade desta gente imoral se manter no poder?
Depois de ver o áudio onde um comitê gaúcho do PT faz terrorismo com eleitores que recebem o Bolsa Família, ter conhecimento de ameaças de perder o Prouni caso vote no candidato da oposição não fica difícil imaginar o tamanho do terrorismo xulo que está sendo feito junto a classe de emergentes da miséria e principalmente entre os miseráveis. Acredito que existam inúmeros votos, que façam expressivo contingente, que sejam reféns do medo. Dentre cúmplices e reféns, se concentram muitos dos votos daqueles que não fazem parte da militância ideológica, e são realmente a grande massa de eleitores que pretendem a manutenção do que está aí.
Ameaçar eleitores com a perda do benefício é inaceitável, mas num país paralisado pelo medo e pelo compromisso dos militantes infiltrados em todas as instituições da república, fica difícil punir na forma da lei. Não é preciso ir longe, basta ver Joaquim Barbosa lutando como Don Quixote, e apesar do apoio popular, sofreu tanta pressão que se aposentou. Hoje estamos vivendo um paradoxo perigoso, temos excesso de leis, contudo elas não bastam para fazer justiça. Denúncias pipocam todos os dias, inebriando o povo que não consegue levar a termo nenhuma delas. O escândalo do uso político dos correios não bastou para que a candidatura governista sofresse sequer a ameaça de ser impugnada. Em consonância com essa situação, a população não recebeu a informação com a gravidade que merecia. Já escrevi sobre cumplicidade, mas me fixei no eleitorado passivo, contudo ela é forte também numa imprensa amestrada, que robotiza escândalos em nome da "isenção" jornalística. Cunho uma frase: as manchetes em letras garrafais tomam a vanguarda da alienação política e social necessária aos donos do poder. Desgraças e crimes são anunciadas de forma a moldar o sentimento de que isso faz parte do plano comum da vida, são vistas e revistas de modo a entorpecer a consciência. Cirurgicamente estão em meio a manchetes sobre esportes e fofocas, o novo circo romano. Nada contra esportes, adoro uma disputa épica e dramática, mas com certeza isso não domina meu dia a dia como assunto principal. A grande sacada que devemos ter como povo é não se abster de debater política, mas não debater como debatemos esportes com o perfil do meu partido ser melhor que o seu partido. Isso é pura idiotice que nos faz cumprir o papel que nos imputam, imbecis retóricos se aproximando do fanatismo e se apegando a siglas e bandeiras.
Precisamos aprender a debater sobre o que esperamos de nossos políticos, o que desejamos para nossos filhos nas escolas e universidades, o que se espera encontrar no momento que necessitamos recuperar nossa saúde num ambulatório ou num hospital, seja público ou particular, e por fim ter o direito de possuir um automóvel particular circulando em vias de qualidade, sem deixar de ter a oportunidade de utilizar um transporte de massa de boa qualidade, a fim de evitar congestionamentos irritantes e diminuir a poluição das grandes cidades. Mas nada disso interessa, pois a classe média pensa demais, pensa de modo até a irritar Chauí, claro, ela representa o pensamento democraticamente único, se isto é possível.
Para corromper qualquer possibilidade de pensamento liberal entre essa nova "classe média", encontraram uma contabilidade com o propósito de identificar a classe pobre, recém saída da miséria com a classe média tradicional. Falar que um pobre da classe D ou E não é classe média é preconceito! A elite (mas que é classe média) branca (excluíram todas as demais etnias da classe média) não aceita pobre viajando de avião!! Pronto, o politicamente correto entrou em cena. Independente de existir ou não o preconceito entre inúmeros indivíduos, e ele existe entre alguns, mas não em todos, a patrulha do politicamente correto é fomentada a fim de se criar o medo de ser rotulado e criminalizado. Silêncio, somos um grupo heterogêneo que precisa se comportar homogeneamente e pensar como "se deve", não são pobres, são classe média agora, por determinação dos aparelhos de estudos econômicos do governo. Pronto, os humildes ganham uma ascensão social e são incluídos, e ai de quem os excluir.
Mas porque fizeram isso com os pobres? Estão realizando o "sonho brasileiro", um pouco mais humilde e forçado que o o americano, mas fazem crer que o povo saiu da miséria da noite para o dia, e não devido a estabilidade econômica iniciada há 20 anos atrás. Memória curta mesmo. Sabem disso. A prosperidade gerada pela baixa inflação foi anabolizada com a grande oferta de credito. Esse "salto" do poder aquisitivo comoveu os excluídos.
Esse sentimento de conquista fica impresso na mente destes emergentes e são a imensa maioria das famílias brasileiras, das classes D e E, que ainda compõe sua renda entre própria e com ajuda do Bolsa Família (alguém acredita 100% na lisura do cadastro?) ou muito dependente da Bolsa como forma de subsistência. Aí entra o golpe de mestre da alienação e do terrorismo eleitoreiro, o eleitor acabou de deixar a miséria, se sente incluído, mesmo que sob condições reais ainda miseráveis, mas tem muito viva a lembrança dos tempos tenebrosos que a vida de privação lhe impôs, e se assusta com qualquer possibilidade de voltar a estes. Não existe como pedir consciência política a alguém nessa condição, mesmo possuindo senso moral, o desespero assume e torna as escolhas reativas. Esse trabalho é a mola mestra do cinismo e do terrorismo petista.
Já fiz uma critica mais severa aos eleitores que sabem de toda podridão moral deste governo e ainda assim não escolhem escapar desta arapuca populista. Farei também aos que temem perder o pouco que tem, pois lembram-me a passagem da parábola dos talentos, aos que pouco tem lhes será tirado esse pouco, e será dado aos que muito tem, e ainda serão atirados às trevas, onde há choro e ranger de dentes. Nem será preciso fazer a correlação espiritual com a situação material presente. Essa parábola é um conselho de amigo, pare de aceitar a esmola que lhe ofereceram e faça sua parte para que seus "talentos" se multipliquem. Ter a coragem de mudar, mesmo que ainda seja longe do ideal necessário, já é um ato multiplicador.
Combinando esta política apodrecida pelo cinismo criminoso, impune, com a paralisia do medo e da cumplicidade, temos a tempestade moral que vivemos. Políticos presos sendo defendidos como presos políticos no governo de seu próprio partido é o bolo desta festa nefasta onde a cereja seria a tal gerentona da cara azeda, fazendo o diabo, literalmente, para manter o poder.
Sentem-se e assistam os próximos capítulos desta história de horror, onde o rei discursa prometendo o céu para todos mesmo mostrando as fotos do inferno, e ainda é capaz de ganhar muitos aplausos. Enredo possível somente num país tão exótico como o nosso.